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Os amantes da fronteira

Após o término de uma relação amorosa, um jovem tradutor de origem obscura decide partir para uma viagem ao Oriente, numa deriva pelas regiões recônditas ou superpovoadas da Tailândia e de suas fronteiras. Nesta jornada, levado pelo acaso das, o personagem perde-se na capital, Bangkok, flutua nas águas quentes do mar de Andaman, recolhe-se num retiro de meditação e conhece outros viajantes, com quem trava encontros ao mesmo tempo sugestivos e fugazes. Em certa altura, a narrativa faz uma curva com a figura de uma outra viajante, Ártemis. Estabelece-se uma relação intensa e silenciosa, uma “guerra erótica” e que abre um abismo de urgências. O final do romance, num campo de concentração em polvorosa, na fronteira com Mianmar, projeta-se num ápice que busca traduzir, pela narrativa, a grande questão do outro como perda e redenção.

Os amantes da fronteira ​é um obra fluente, movida por uma inquietação: será que a viagem pode ser uma forma de habitar uma ausência? Será que as diferenças – não só afetivas, mas também culturais – podem ser transcendidas se encararmos as cidades modernas não como “aquelas que nunca dormem”, mas como “cidades renegadas e cidades cúmplices”, “cidades-labirinto, poluídas por cem mil fios descapados de Ariadne”?

Resguardado pela solidão e pelo anonimato, o protagonista (cujo nome é uma inicial misteriosa, Y) atravessa os destinos de sua viagem como quem assimila o estado transitório – de onde podemos depreender a assimilação das experiências meditativas e as referências ao budismo e à fugacidade dos instantes. Isso não significa, no entanto, que Y. busque encontrar refúgio na iluminação: “Não há mantras a entoar”, ele enuncia após o retiro Vipassana.

Com cinco obras publicadas, Tiago Novaes, escritor e tradutor brasileiro, foi finalista do ​Prêmio Oceanos em 2015 com este romance, ao lado de Valter Hugo Mãe, Chico Buarque e Ondjaki. O autor, que já foi finalista dos ​Prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura​, lança-se em uma experiência de desenraizamento que o coloca em contato com as suas angústias e anseios mais profundos, por vezes conflitantes: o desejo de reconciliação e de abandono, as impossibilidades na comunicação, os abismos da linguagem e as vertigens da psiquê errante.

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