Um romance não se faz em um dia.

Uma ideia começa a surgir. Personagens fora de foco.

Você ainda não sabe muito sobre eles. A imagem é forte, mas faltam os detalhes.

Digamos que seja um romance histórico. Uma vez você leu a história de uma mulher durante a invasão holandesa em Pernambuco. Os historiadores que desenharam o conflito estimularam a sua imaginação.

Então você estuda um pouco mais e contempla as pinturas dos holandeses na época. A austeridade de suas edificações, suas sociedades e associações comerciais.

Um conflito entre potências europeias no Brasil. Os habitantes locais não puderam resistir. Não havia estrutura defensiva. Os holandeses se entrincheiraram no começo – como teria sido a vida naqueles dias? Aí você vai para Celso Furtado, e vê que o declínio da cana no Brasil está ligado à espionagem industrial do engenho pelos holandeses. E que a expulsão dos holandeses se deve à queda do preço do açúcar.

Mauricio de Nassau como um administrador atípico. Você se encanta com a Recife daquele tempo.

Mas romances precisam de narrativas, ainda que sejam internas como as de Clarice.

Seu personagem é um soldado? Um artesão? Um pintor trazido em um dos sessenta navios? Por que ele veio? Ele se apaixona por alguém? Ele bandeia para o outro lado? Integra uma sociedade secreta?

Afinal, que tipo de história você quer contar? É um melodrama, uma peripécia, um thriller de época? Um romance contemplativo das paisagens americanas pré industrialização?

Quantas partes terão o seu livro? Você o imagina com duzentas páginas? Quinhentas? O antagonista é a morte e o envelhecimento, a distância, a natureza, a opressão do Estado, as perversidades da sujeição pelos colonizadores?

Quais elementos da complexa vida seiscentista vão participar da história? As doenças? A fome?

A prosa está mais para Conrad? A forma de narrar é tradicional, com a de Ana Miranda? Ou satírica? Ou lírica?

Enquanto isso, você escreve. Uma cena aqui e ali. Desenha as expressões da personagem – esta heroína – a Recife.

Você decide escrever mais do que vai publicar, porque vê essa como uma das maneiras de dar vida à cidade dentro de você. Você se perde em mapas antigos, coleciona todas as curiosidades que vê. Certo dia, lê sobre Montaigne e decide que seu protagonista se inspira nele.

Mas como o meio literário atual vai enxergar o seu livro? Você precisa mesmo se preocupar com isso agora?

Em algum momento, você descobre que o passado apenas importa quando conversa com o presente. Que o nosso tempo não permite curiosidades desinteressadas.

E que você quer escrever sobre personagens à mercê de forças cujos propósitos lhes escapam. E você quer pensar nos conflitos atuais e transplantados em um novo cenário, para que talvez os leitores possam enxergar o presente de outro modo.

Você vai lançar o leitor para uma aventura. E vai mostrar um continente fascinante que já não existe mais. O que o motiva é o estranhamento diante desta paisagem tão alheia a nós quanto as crateras da lua. Que o Brasil foi outra coisa, que não um território, uma nação, um domínio. E que a visão de mundo daquele tempo guardava uma dimensão que hoje consideraríamos revolucionária, liberadora.

Você segue pensando na história e em suas anedotas. Agora delimita as ruas importantes de sua cidade. Uma chácara. Um engenho. O choque de culturas no coração de uma natureza exuberante.

É um exercício. Você prossegue, porque inventar faz sentido. De algum modo, escrever é um modo de irmanar-se dos mistérios da história e da alma humana.

E justamente por isso, você não tem pressa.

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