Que bom para você se não for o seu caso, mas persiste uma tendência a enxergar o impulso artístico como um capricho, um surto narcísico, egoísta, porque se considera que ele nos afasta dos outros, das comitivas gregárias, da música que todos estão escutando.

Se acaso crescemos em uma família austera, que via com preocupação, irritabilidade e desconfiança as nossas notas criativas durante a infância, não raro esse olhar de censura será introjetado, e perpetuaremos o conflito na intimidade dos pensamentos conscientes e inconscientes. Essas vozes não dissipadas se convertem em escrúpulo, ressentimento, bloqueio criativo. Dão azo a comparações, ao sentimento de estar de fora, deixando-nos com a obsessão equivocada de que deveríamos nos tornar outra pessoa.

Se nossos pais, ou nossos irmãos não trabalharam minimamente os seus próprios impulsos destrutivos, e se projetaram sobre nós não apenas a preocupação, mas o sarcasmo, o deboche, a humilhação, vamos crescer vendo os nossos esforços de emancipação como um esforço pueril, indigno, risível. E esta será a maior pedra no meio do caminho. O trabalho, então, é o de desconstruir essa concepção equivocada, essa ideologia neurótica.

E se com tudo nas costas ainda sentimos a necessidade de criar, de escrever, de inventar, é porque sabemos em algum lugar que a criatividade é como o sangue que corre em nossas veias – tão real e importante quanto este. Que criar não é egoísta, mas transcendente. É uma força que está em nós e em todas as coisas. Ela faz do botão uma flor, ela tinge as cores do mar e do céu e dá harmonia ao canto dos pássaros.

Não precisamos explicar esta força, mas reconhecê-la. Não precisamos nos rodear de justificativas para as coisas a princípio sem sentido que fazemos. Precisamos dançar; tomar uma bicicleta e atravessar a cidade; precisamos desenhar num papel as nossas fantasias informes; apanhar uma câmera e começar a enxergar.

Precisamos encher um caderno com palavras que sejam nossas.

Um abraço,

Tiago

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